Entrevista com MÁRIO ENDERSON por VITOR BATISTA

janeiro 13, 2012


 

Vitor Batista – http://blogzdovitor.blogspot.com/

Mário Enderson – http://marioenderson.blogspot.com/

Vitor Batista – Além de desenhar e pensar em pornografia o que você faz?

Mário Enderson – Não muita coisa, na verdade. Leio bastante – não só quadrinhos, mas literatura – assisto filmes, seriados, e ouço música. Quando desenho em casa, geralmente ouço música. Dá pra criar uma atmosfera legal, e ajuda muito porque desenhar é uma atividade muito solitária. Então, geralmente, procuro trilhas sonoras que me estimulem positivamente como Red Hot Chili Peppers e Rolling Stones. Mas às vezes, música demais atrapalha, principalmente se estou ainda no processo de criação da história, porque me tira um pouco a concentração. Na literatura, eu gosto de coisas mais cotidianas e rápidas como contos e crônicas. Não tenho muita paciência para grandes obras de ficção. Curto muito o Charles Bukowski, hoje, o meu escritor preferido. E também alguns autores brasileiros como Fernando Sabino, Carlos Drummond de Andrade, Rubem Braga e Paulo Mendes Campos. Pra ser sincero, li pouca coisa deles, mas o pouco que li acho sensacional. Esse lance de usar as coisas simples do dia-a-dia, aquilo que pra maioria das pessoas passa despercebido, pra contar histórias sempre me fascinou. Também escrevo muito, mas não é literatura. São mais idéias ou conversas que penso em transformar em quadrinhos. Quando penso numa história, não consigo deixar de pensar nas imagens. Sinto que só as palavras não são suficientes, no meu caso. Em relação ao cinema, ando muito empolgado com algumas descobertas pessoais. Recentemente, baixei na Internet uma coleção dos filmes do Stan Laurel e Oliver Hardy (O Gordo e o Magro, aqui no Brasil). É simplesmente genial! Um tipo de humor inocente, que até hoje é muito copiado. Acho muito estimulante ir às raízes de mídias como cinema e quadrinhos. Saber de onde veio tudo isso que hoje é tão comum. Dá pra ter uma idéia de como se movimentar melhor dentro daquela arte. Mas também acho importante ficar atento para coisas mais atuais. Gosto de humor negro e coisas mais politicamente incorretas como aquele seriado, o It´s Always Sunny in Philadelphia. Acho sensacional.

 

VB – Conte-nos a sua história com as histórias em quadrinhos.

ME – Longa história. Teve início bem cedo, ainda na infância. Comecei, como praticamente toda criança no Brasil, lendo Turma da Mônica. Ficava copiando os personagens e tentando entender como funcionava aquela estrutura de desenho. Desenhar sempre foi a atividade que mais me absorveu. É muito primitivo. As imagens sempre nascem antes das palavras. Também lia muita coisa da Disney e Luluzinha e quase nada de super-herói, mas sempre fui fã do Batman, porque ele é mais um detetive do que um super-herói. Mas não lia os quadrinhos. Só tinha visto os filmes do Tim Burton. E claro, vivi a febre dos animes com os Cavaleiros do Zodíaco. Era o que eu mais desenhava nos meus seis, sete anos.

Quando tinha uns oito, nove anos, tive meu primeiro contato com os quadrinhos do Laerte, Angeli e Glauco através de uma matéria sobre tiras na revista Herói. Fiquei muito curioso a respeito daquelas tiras, principalmente porque algumas eu ainda não entendia. Sabia que elas não eram certinhas como as outras que lia no jornal. Eu ficava lendo e relendo pra ver se captava a mensagem, mas não tinha jeito. Faltavam-me alguns hormônios. Então eu fiz doze, e entendi do que se tratavam. Nessa época, criei um personagem inspirado naquela linha de humor ácido. Fiz umas poucas tiras e abandonei. Tinha uma autocrítica muito forte que me impedia de desenvolver minhas criações.

Lembro que gostava de uns quadrinhos dos Trapalhões do Marcelo Cassaro, Gustavo Machado e Paulo Borges. Eram histórias que parodiavam seriados japoneses e filmes. Humor de primeira. Perdi a conta de quantas vezes li aquelas histórias. Aí, inspirado nelas e nos quadrinhos da Disney, criei um quarteto de amigos que se envolvia em uma série de confusões. Fiz uma história de 10 ou 12 páginas, que dobrei como uma revistinha. A história não tinha nada de mais. Parando pra pensar, era até divertida, com um final desses bem típicos de quadrinhos. Mas não tive coragem de mostrar pra ninguém. Joguei tudo no lixo, temendo que alguém lesse e não achasse engraçado. Preferi evitar a frustração.

Com o bum dos mangás no início dos anos 2000, passei a ler bem mais quadrinhos. Lembro que fiquei bem mais atento a questão do estilo de traço e narrativa, já que os mangás tinham o autor em destaque. Akira Toriyama (Dragon Ball), Nobuhiro Watsuki (Samurai X), Yoshihiro Togashi (YuYu Hakusho) e Masakazu Katsura (Video Girl Ai) eram os meus favoritos. Eu rabiscava muito nos cadernos durantes as aulas imitando o estilo desses caras. Criava personagens e histórias, mas não conseguia concluir nada, pois minhas histórias acabavam virando mega-sagas, como nos mangás.

No final da adolescência, passei a ler quadrinhos de super-heróis, porque estava mais interessado no desenho da figura humana. Assim, depois que passei no vestibular para Ciências Sociais, decidi procurar um curso pra aprimorar minhas habilidades como desenhista. Queria desenvolver o meu traço. Achei que precisava estudar anatomia, luz e sombra, perspectiva, essas coisas.

Encontrei o estúdio do Daniel Brandão. E para minha surpresa, era um estúdio voltado para quadrinhos. Fiquei fascinado com aquele ambiente e em conhecer pessoas que faziam quadrinhos. Não sabia que havia tantos quadrinistas em Fortaleza. Tive aulas com o Jota (JJ Marreiro) e com o Daniel. Dois mestres que me influenciaram bastante, principalmente por causa da revista deles, o Manicomics. Nessa fase, tive contato com os mais variados tipos de quadrinhos. As histórias do Will Eisner me chamaram atenção, pois eram muito humanas. Outros artistas que passei a gostar foram Milo Manara, Jordi Bernet, Frank Miller, John Byrne, Eduardo Risso e John Buscema.

Meu horizonte se ampliou e eu comecei a pensar seriamente em fazer daquilo uma profissão. Mas não me empolgava nem um pouco com a idéia de ser um desenhista contratado por uma editora pra desenhar roteiros de outras pessoas. Não me interessava. Queria desenhar minhas próprias criações, fazer as coisas do meu jeito sem ter que depender de ninguém. Então, passei a me disciplinar a concluir minhas histórias. Fiz algumas, mas lembro que era uma atividade forçosa e cansativa. Acho que era assim porque eu não conseguia passar identidade para o papel. Eu ainda tinha muito medo de me expressar. Era tímido.

Por volta de 2009, como conseqüência de uma aula do Daniel, tive meu primeiro contato com os quadrinhos do Robert Crumb e a galera da Zap Comix. Aquilo me marcou. Eram os quadrinhos mais loucos e depravados que eu já tinha visto. Liberdade absoluta! Mas acho que eu ainda era novo demais pra sacar o que o Bob e sua turma queriam realmente dizer.

Continuei desenhando minhas histórias e decidi que as levaria para um nível mais cotidiano, pois era um gênero que eu gostava de ler em literatura. Só não sabia bem como fazer isso. Achava massa as histórias de Love and Rockets, aqueles quadrinhos dos irmãos Hernandez, mas não me inspiravam a nível de criação. Então, apenas segui desenhando meus quadrinhos, sem pretensão alguma de trabalho sério. Lembro que já estava ficando cada vez mais interessado nas hachuras das artes do Brian Bolland e do Serpieri.

Fiz muitos amigos através do estúdio do Daniel e acho que isso é um dos fatores que me fizeram permanecer nesse lance dos quadrinhos. É bom ter gente legal por perto, que gosta das mesmas coisas que você e tem sonhos parecidos. Dá um estímulo a mais, faz você ter ânimo pra continuar. Tive muita sorte nesse ponto, em conviver com tantas pessoas legais.

Entretanto, logo no início de 2010, tive um sério problema de depressão. Foram semanas estranhas e amargas. Lembro que nessa época, o Daniel me convidou a fazer parte da equipe do seu estúdio. Então, passei a freqüentar o estúdio mais vezes durante a semana. Sou muito grato a ele, pois naquele momento, isso me ajudou a manter a cabeça no lugar. O Daniel é um desses raros amigos que tenho a honra e o prazer de conviver. Sempre aprendo muito com ele.

Nessa época, larguei o curso de ciências sociais e fui estudar cinema na UFC. Eu andava bastante deprimido e decepcionado com minha vida, e, com isso, tinha perdido completamente a vontade de desenhar quadrinhos. Queria experimentar outros caminhos, mas sempre acabava me sentindo mais perdido que antes.

Contudo, numa aula de narrativa da faculdade, assisti American Splendor, filme que conta a história do Harvey Pekar. Aquele filme realmente me tocou. O Harvey transformava os fatos mais simples e rotineiros da vida dele em histórias em quadrinhos. Pensei comigo: é isso! E olha que sorte a minha: eu estudava em frente à Gibiteca de Fortaleza! Foi lá que conheci as histórias do Harvey Pekar desenhadas pelo Robert Crumb, na coletânea Bob & Harv – dois anti-heróis americanos. Achei incrível! Harvey tinha um humor ranzinza que aliado a arte magnífica do Robert formavam um quadrinho fluido e agradável de ler. Harvey contava fatos tão ordinários que nem parecia que eu estava lendo uma história em quadrinho. Aquele nível de realidade era o que eu queria – mesmo sem saber – nos meus quadrinhos.

Em seguida, fui atrás das histórias do Robert Crumb. Li muita coisa dele. Crumb não tinha medo de contar nada nos seus quadrinhos. Eram histórias absurdamente sinceras, onde ele escrachava tudo aquilo que mais odiava na América. Mas o que me marcou de verdade foi ver que o humor dele, muitas vezes, se voltava contra ele mesmo. Fiquei chocado. Como alguém tinha coragem de contar todas aquelas coisas sobre si mesmo? Achei aquelas histórias tão íntimas e confessionais que era como se estivesse conversando com um amigo. E eu não conseguia parar de conversar com Robert. O documentário Crumb dirigido pelo Terry Zwigoff (assista no final da entrevista ao filme The Confessions of Robert Crumb – 1987) também foi outro filme que me tocou, por ser um relato cru da vida dele. Um filme tão sincero e honesto quanto a própria arte do Robert.

Enfim, Robert e Harvey me inspiraram profundamente, não só em nível de histórias, mas filosoficamente. Os dois têm visões singulares da vida e conseguiram passar isso para as suas histórias de forma magistral, sem máscaras.

Várias idéias começaram a fervilhar na minha cabeça e eu comecei a rabiscar no caderno. Durante essa fase, tornei a cuidar melhor do meu eu interior. Passei a me dedicar às pequenas coisas e deixei de criar grandes expectativas sobre a vida, que era o que mais me frustrava, no fim das contas. Acredito que a chave para a paz interior é a aceitação. Quando passei a aceitar, tudo mudou, meus problemas deixaram de ser grande coisa, me senti mais leve, mais livre. Desde então, tento aceitar tudo que acontece ou deixa de acontecer na minha vida. Somente quando aceitei as coisas do jeito que eram, é que consegui me desvincular do passado e de meus fantasmas mentais e fiquei livre para viver o momento e mergulhar em mim mesmo para fazer arte.

Acho que minha visão de mundo mudou consideravelmente naquele período.

Minhas prioridades mudaram. Comecei a buscar inspiração na minha própria vida. O mundo me inspirava e eu adquiri o hábito de escrever tudo em cadernos de idéias. Tudo mesmo: uma conversa com alguém, a volta pra casa de ônibus, pensamentos, um fato que me deixasse irritado, qualquer coisa.  

Porém, eu tinha passado uns seis meses sem desenhar uma página de quadrinhos sequer, então voltar a desenhar quadrinhos foi uma coisa realmente difícil. Mas as idéias chegavam aos montes, então eu tinha que fazer. Resolvi levar as histórias para um patamar mais pessoal e íntimo. Uma espécie de terapia em quadrinhos, onde a única coisa que é proibida é a autocensura. Aos poucos, fui aprendendo a usar os meus medos e repressões a meu favor. Senti que, finalmente, estava conseguindo colocar minha alma nas histórias. E quando me dei conta, não dava mais pra parar, nem voltar atrás.

Passei a desenhar na rua, em praças e pontos de ônibus, direto na caneta, buscando minha inspiração no real, nessa loucura diária do mundo. É um exercício bacana, porque me faz perceber melhor as coisas à minha volta, posso enxergar por trás de toda essa confusão e poluição.  

Tem sido uma grande descoberta pra mim. Uma viagem sem rumo, onde todos os caminhos são possíveis.   
 

VB – O que te motiva a fazer uma história em quadrinhos?

ME – Pode ser qualquer coisa. Uma piada, uma conversa com algum amigo, uma frustração, minhas taras sexuais, meus medos. Na verdade, acho que as coisas negativas me inspiram muito mais do que as positivas. Não se trata de ser uma pessoa negativa. Pelo contrário. Trata-se de saber usar as adversidades a meu favor. E quando eu falo em adversidades, falo principalmente do meu eu interior, dos meus pensamentos. Sim, porque acredito que nós somos os nossos maiores inimigos. É muito difícil nos desvincularmos de nossos próprios pensamentos, porque depositamos neles uma falsa idéia de identidade. Tendemos a achar que somos os nossos pensamentos, o que não é verdade. Então, quando eu entro numa onda de pensamentos depressivos, autodepreciativos, eu não procuro fugir disso. Eu vou fundo nesses sentimentos e escrevo sobre eles. Escrevo sem parar no meu caderno até essa corrente de pensamentos cessar, o que não quer dizer que eu não fique triste enquanto escrevo. Mas depois que a coisa toda passa, eu consigo olhar pra essas anotações de maneira diferente, pois não estou mais identificado emocionalmente com aquilo. Então, pode ser que eu use aquilo pra uma história ou pra criar um personagem. Nunca se sabe. Na arte é tudo muito imprevisível, como na vida. Posso transformar algo que era extremamente negativo em uma piada que faça as pessoas rirem. Fazer quadrinhos virou uma terapia pra mim. Por isso, gosto de explorar o meu lado negro. É preciso coragem, porque as coisas tendem a ficar cada vez mais íntimas. Não dá pra recuar. É impossível! Se for menos sincero, estarei regredindo na terapia. Às vezes, estou escrevendo uma idéia pra uma história ou personagem e penso: ´´ó meu Deus, todo mundo vai saber!´´. E aí, começo a rir de mim mesmo. Quando isso acontece, eu sei que aquela idéia eu TENHO que desenhar, porque, no fundo, é disso que se trata a coisa toda: rir de si mesmo. É tipo: ´´eles vão saber! Lascou! Ha, ha!´´ Mas é isso aí. É como contar um segredo. Cada história que termino me proporciona uma grande sensação de alívio. É bom ficar pelado de vez em quando pra não enlouquecer. É uma revelação, como se eu descobrisse um pouco de mim mesmo a cada quadrinho. Às vezes, começo uma história e não sei bem sobre o que ela é realmente, do que se trata. O Marcelo Silveira surgiu assim. Eu não sabia sobre o que era. Aí, vem alguém e me diz: ´´legal! Tu tá expondo o teu lado misógino e depravado!´´. E eu digo: ´´é?´´ E eu lá sabia.

 

VB – Se nesse momento, você tivesse que escolher três HQs para reler numa ilha deserta, quais seriam?

ME – Putz! Não poderia ser três atrizes pornôs?… Tá, três HQs…

Bob & Harv – dois anti-heróis americanos. Perdi a conta de quantas vezes li essas histórias. Sempre releio quando posso.

Ghost World do Daniel Clowes que é outro cara genial.

E o Overman do Laerte que eu acho muito engraçado e talvez evitasse que eu enlouquecesse de vez nessa ilha deserta!

 

VB – Quais as suas ambições como quadrinista?

ME – Só quero fazer histórias livres e sinceras. Procuro me manter sempre aberto às possibilidades. Se você define um caminho a trilhar acaba ficando previsível. E nunca se sabe o que vem em seguida. Pode ser que surja um caminho diferente, que você nunca imaginou tomar. E é isso que me mantém desenhando. Esse mistério de não saber o que vou descobrir na próxima história. Tenho vários projetos de revistas na gaveta. Pretendo lançar alguma coisa muito em breve. Se der pra descolar uma grana com isso, tanto melhor.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Publicado por Daniel Brandão

O Estúdio Daniel Brandão produz quadrinhos, ilustrações, criações de personagens e mascotes. Aqui também são oferecidos cursos de Desenho, HQ, Desenho Avançado e Mangá, além de aulas particulares.

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