Criando mundos, desenvolvendo histórias

maio 15, 2019


Uma das grandes razões de existir de uma história é a capacidade de nos levar a outros mundos, nos tirar de nossa muitas vezes tediosa realidade e nos colocar dentro de um universo único à parte do espaço, tempo e continuun em que estamos – mesmo que este realmente exista em outro canto do planeta ou seja mesmo o nosso, mas sob o ponto de vista particular de um artista. Criar um novo mundo é dar base a uma narrativa, entregando um conjunto de regras do que é possível acontecer ou não dentro dela. Enfim, é a “gravidade” (em termos de força física) de uma história, ou seja, a lei mais básica de sua existência, e que dá sustentação e segurança aos personagens nela inseridos e aos leitores e espectadores desta.

Importante perceber que criar um mundo vai muito além da simples feitura do cenário. Ele está muito mais próximo de uma ambientação psicossocial, dando ao leitor um conjunto de crenças, regras, posturas, estereótipos, culturas e limitações, do que uma simples reprise ou modificação de coisas reais. Um “universo” eficiente é visualmente explicado nos primeiros segundos de um filme ou nas primeiras 2 páginas de um impresso e compreendido com a mesma velocidade, e ainda é mentalmente marcante mesmo quando abandonamos a obra, bastando um ou dois elementos para nos remetermos imediatamente a ele. Bons exemplos para isso não faltam, desde Senhor dos Anéis, do diretor Peter Jackson, a Blade Runner, do diretor Ridley Scott, que também é responsável pelo filme Alien.

Logicamente, desde a mais simplória fantasia a mais longínqua região do espaço, passando pela massacrante realidade, antes de terem o formato e escopo final que recebemos nos cinemas ou impressos, os “novos mundos” tomam como base elementos reais, os quais são estudados e trabalhados e reincorporados a outros, indo de formas mais complexas a mais simples e vice-versa, mas que sempre definem não somente os locais, mas os seres de lá, como são, o que são, como vivem, o que pensam, suas histórias prévias e preparações para o futuro e como tudo isso coexiste e influencia suas formas de perceber o mundo e reinterpretá-lo. É patente a pesquisa que James Cameron fez para construir o mundo de Avatar, chegando a passar dias na selva amazônica e entre os índios, incorporando aquele mundo em sua fictícia Pandora.

Aí está a verdadeira magia de um mundo imaginado, ele costuma ser, de alguma forma, um simulacro do nosso, de nossa própria realidade e, por isso, de nós mesmos. Se o receptor (leitor, espectador, consumidor), mesmo afundado em efeitos especiais de máquinas gigantescas ou repleto por magia primordial, não reconhecer símbolos e elementos comuns a seu arcabouço (sejam eles simpáticos ou não ao seu gosto), haverá uma certa ojeriza à obra e uma alienização que pode ser perniciosa ao trabalho. Voltando ao exemplo de Cameron: Pandora, por mais imaginativa que fosse, era formada por folhas, montanhas, arbustos, animais alados e terrestres que se comportavam em estruturas semelhantes às nossas e os espectadores reconheciam e simpatizavam com aquilo porque ainda eram elementos que eles entendiam, mesmo que “cartunizados”, idealizados e fantasiados.

Criar mundos nada mais é que fazer a mais simples e importante regra da produção artística: tornar seu trabalho humano.

Publicado por Daniel Brandão

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