As Profissões Invisíveis

junho 12, 2019


A primeira vez que trabalhei com quadrinhos não foi como escritor ou letrista, mas como revisor. Eu mesmo não entendia a importância da profissão até começar a executá-la e, mesmo assim, nunca quis “fazer carreira” com a revisão, mas utilizá-la como um degrau para outras. Assim, de revisor, passei a ser letrista e depois comecei a escrever meus próprios roteiros.

No entanto, a revisão me fez perceber algo: eu era “invisível” para quem lia o quadrinho. Não houve falha dos produtores em indicar quem executou a função, mas, de forma talvez muito natural, há uma hierarquização no processo de feitura que faz com que o revisor seja deveras importante para quem produz a obra, mas praticamente esquecido pela maioria dos leitores.

Por sinal, quanto maior a qualidade da revisão, maior a possibilidade de ela não ser percebida por quem lê, assim como, se ela não for apropriada, a percepção de que “faltou revisão” aumenta e, com isso, a chance de alguém (revisor) ser indicado como realizador de um produto desleixado, “feio”.

Numa escala menor, arte-finalistas passam por um processo parecido. Enquanto bons arte-finalistas são disputados a tapa por desenhistas, aos olhos do leitor regular o encantador acabamento (ou a perturbadora finalização) é consequência da técnica e talento do desenhista: estrela suprema de um bom gibi, ficando ao arte-finalista a estereotipada função de “cobrir de preto” o lápis.

Uma das consequências desse tipo de pensamento é o desenvolvimento de escritores bastante preocupados em fazer um texto o mais gramaticalmente correto possível – chegando a dispensar revisores – e desenhistas com “lápis” cada vez mais acabados e precisos, deixando pouco (ou mesmo nenhum) espaço para a interação com arte-finalistas. Apesar de parecer uma melhora na eficiência do trabalho – o que casa perfeitamente com o pensamento do capital e a busca pela conclusão cada vez mais rápida do processo – pode significar a perda da oportunidade de ter uma segunda visão inserida no trabalho, muitas vezes contribuindo para que este vá numa saudável e criativa direção não planejada, melhorando-o ou mesmo retirando uma preocupação dos produtores originais, permitindo-os relaxar enquanto concentram-se noutra etapa do processo ou produzem uma nova obra.

Apesar de “invisíveis”, essas (e outras) profissões são importantes por agregarem muito à obra, acrescentando um novo mundo de experiências ao resultado. Bons revisores veem além do texto, muitas vezes trazendo sugestões válidas que garantam que o produtor original consiga manter sua voz em todas as etapas do texto, procurando colocá-lo no caminho correto de seu próprio universo. Além de analisar espaçamentos, adequação do design, ordem de títulos, coerência visual, nomes de envolvidos etc. Bons revisores são fiscais do “documento textual”, não simplesmente indicadores das incoerências textuais.

Por sua vez, arte-finalistas de qualidade dão forma ao lápis, trabalhando o bom ajuste de luz e sombra, desenvolvendo texturas, corrigindo discrepâncias estruturais, desvios anatômicos e reforçando a narrativa visual. Além disso, podem dar identidade ao traço, mantendo a integridade e consistência das formas, diferenciando planos, reforçando focos, trazendo limpeza e equilíbrio ao desenho.

A parte disso, reconhecer (e mesmo se utilizar de) essas “profissões invisíveis” é ter a certeza da quantidade de mãos e mentes de um trabalho, e perceber que um quadrinho ou um livro são muito mais do que os destacados nomes de seus escritores e desenhistas, mas o resultado do trabalho de uma equipe apaixonada por essas artes e, dentro de certo engajamento, co-autores das obras que tanto amamos.

Publicado por Daniel Brandão

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