Exercício de Luz e Sombra

dezembro 27, 2017


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Publicado por Daniel Brandão

O Estúdio Daniel Brandão produz quadrinhos, ilustrações, criações de personagens e mascotes. Aqui também são oferecidos cursos de Desenho, HQ, Desenho Avançado e Mangá, além de aulas particulares.

Daniel Brandão

dezembro 22, 2017


Publicado por Daniel Brandão

O Estúdio Daniel Brandão produz quadrinhos, ilustrações, criações de personagens e mascotes. Aqui também são oferecidos cursos de Desenho, HQ, Desenho Avançado e Mangá, além de aulas particulares.

Walber Feijó, um mestre

dezembro 06, 2017


 

1A arte é um todo. Você não pode ser um artista se não houver música no teu desenho, ou se não houver poesia na tua escultura” (Walber Feijó)

Conheci o trabalho do Walber Feijó em 1995 na Oficina de Quadrinhos da UFC. Ele era de uma turma anterior a minha. Ao me deparar com seus traços, pensei de imediato: um mestre! Artista completo, clássico e virtuoso, Walber possui a mais nobre qualidade dos verdadeiros mestres: a simplicidade. Depois de fazer parte do histórico álbum Moreira Campos em Quadrinhos e de publicar na Brazilian Heavy Metal, ele aceitou generosamente o convite para publicar no Manicomics, revista independente que eu editei junto com JJ Marreiro e Geraldo Borges. Uma tremenda honra!

A sua arte incrível e seus roteiros inteligentes são atualmente publicados online no Armagem, site que reúne um grupo de quadrinistas cearenses que foi contemporâneo a ele na Oficina de Quadrinhos. Em 2016, Walber publicou uma linda história no álbum Antologia HQ, pela Demócrito Rocha. Projeto este que está concorrendo em duas categorias ao prêmio HQ Mix deste ano.

Além de quadrinhos, Walber trabalha com pinturas, ilustrações e retratos, sendo especialista em técnicas como aquarela e pastel. Vamos bater um papo com este Maranguapense sobre sua arte e suas raízes.

 

A sua arte é clássica e de nível internacional, mas sempre senti o Ceará muito presente nela. O que você traz de Maranguape, cidade que nasceu, e de Paramoti, de onde tem raízes, para suas linhas e suas cores?

Embora tenha crescido devorando quadrinhos Disney e de super-heróis, as coisas do sertão ficaram entranhadas nos olhos. Os garranchos secos e retorcidos das paisagens da minha Paramoti para mim eram desenhos maravilhosos. Não tive como escapar das hachuras rebuscadas e dos temas sofridos. Daí, acho, vem minha predileção pelo desenho realista.

Como as histórias em quadrinhos entraram na sua vida?

As primeironas mesmo foram as do Maurício de Sousa no início dos anos 70 com as quais praticamente aprendi a ler, seguidas pelas maravilhosas aventuras Disney. Como não tinha uma compleição física muito apropriada para as brincadeiras na rua junto com o resto da turma, a leitura passou a ocupar lugar de destaque na minha rotina e, consequentemente, o interesse pelo desenho, porque eu queria muito fazer aquelas revistas também. Comecei a fazer revistinhas com heróis da Marvel e depois com meus próprios personagens.

Como você descobriu a Oficina de Quadrinhos da UFC e como foi a sua experiência neste projeto?31

Já na faculdade, uma amiga me apresentou ao Fernando Lima que me falou do projeto de extensão. Lembro que tinha umas poucas páginas prontas para mostrar (de um tipo de vigilante urbano) feitas com hidrográficas e muitos, mas muitos remendos e colagens. Para minha surpresa o professor Geraldo Jesuíno gostou daquela “bagunça”. Lá fiz as melhores descobertas sobre a nona arte: materiais, técnicas, papeis, estilos, recursos… Para se ter uma noção, nunca tinha ouvido falar de Flávio Colin ou de Moebius nem de papel Schoeller. Foram tempos fantásticos, quebra de paradigmas e, principalmente, muitos bons e verdadeiros amigos.

 

A Oficina gerou publicações importantíssimas para a história do quadrinho cearense. Especialmente a PIUM, Carbono 14 e o histórico (e raro) álbum Moreira Campos em Quadrinhos. Você participou de todos esses projetos?

Cheguei um pouco depois da segunda (e última) Carbono e só estreei pra valer na PIUM nº 7 com uma história meio sem pé nem cabeça de um monge em busca da verdade ou algo do tipo. Daí repeti o privilégio em quase todas as edições seguintes, com HQs e matérias, inclusive fazendo as capas de algumas delas. A ordem era ousar e experimentar. Em pouco tempo eu já estava na monitoria do curso. Mas a cereja do bolo foi mesmo “Moreira Campos”. Era a hora de crescer. Lembro de ter desenhado mais de uma, duas, três vezes um mesmo quadro e até uma mesma página, testando texturas, alinhando a narrativa. Aquele projeto me fez um bem danado: descobrir que quadrinho poderia ser levado à sério.

 

A revista Heavy Metal é uma versão americana consagrada da clássica francesa Metal Hurlant. Nos anos 90 foi publicada em nosso país a Brazilian Heavy Metal e você publicou nela! Conte-nos a respeito.32 HD

Por esse tempo eu já colecionava muita coisa e tinha descoberto o Silvio Amarante da Revistas & Cia. com aquele acervo monstruoso. Foi quando ele viu alguns desenhos meus e disse que o Carlos Mann da COMIX estava tocando um projeto para a Heavy Metal com quadrinhistas nacionais. Mal terminou de fazer o convite e eu já tinha aceitado. Fiquei incumbido de fazer uma ilustração da “Donzela Teodora”, figura mítica presente na cultura dos cantadores e repentistas do sertão.  Foi a primeira grana que ganhei com arte. Mas o mais importante foi estar em uma publicação ao lado de artistas da estirpe de Mozart Couto, Shimamoto, Mutarelli e o imortal Colin dentre tantos outros.

 

Sempre achei a sua arte de nível internacional. Você tem uma qualidade incrível e poderia facilmente ser publicado em mercados grandes como os EUA e a Europa. Como o mercado de quadrinhos no Brasil praticamente inexistia nos anos 90, você não pensou em tentar romper e conquistar essas fronteiras?img098_WEB

A imaturidade da gente é uma coisa complicada. Naquele tempo eu tinha a visão de que só existia o mercado americano como possibilidade, muito embora eu tivesse tido o contato (e o deslumbre) do quadrinho europeu, mas – cá pra nós – se o mercado americano era praticamente inalcançável, imagine o europeu. Por outro lado, eu sempre fui o meu pior crítico, o que deve ter me poupado de um bocado de vexames.

 

Um dos pontos altos da história do Manicomics foi a sua participação com a história Agonia. O que te fez topar o convite de três garotos fãs do seu trabalho? Aproveito para registrar aqui a minha gratidão.

Três garotos coisa nenhuma. Vocês eram os caras que estavam andando com as próprias pernas, fazendo um trabalho que eu sempre entendi como o legítimo fruto e objetivo da Oficina: sonhos! Isto me fez topar o convite.

O Agonia foi criado para o Manicomics e era um tipo de “vampiro às avessas” que absorvia dor e sofrimento e retornava cura para as pessoas. Fiquei muito triste com o fim do Manicomics. (Muito. Triste. Mesmo. Entenderam?)

 

Depois dos anos 90 houve um hiato na sua produção ou você nunca parou? Fale-nos sobre o projeto Armagem?página 1 de 4

Trabalho, família, outros afazeres e um certo desapontamento com algumas portas que se fecharam me fizeram parar mesmo. Uma dessas portas fechadas foi o fim da Oficina. Até que os dinossauros se reencontraram e inventaram o “Armagem Herética” (tinha esse nome por conta do título de uma HQ do Silas Rodrigues, e depois passou a se chamar apenas ARMAGEM). Queríamos fazer histórias em quadrinhos. Não importava de que forma. O Fernando (sempre ele) nos instigou a enveredar pelos espaços virtuais o que era, em muitos aspectos, até mais prático do que fazer HQ impressas, o que me permitiu desenterrar vários projetos antigos como “O Homem Morto”, “Loja de Rostos” e até as tirinhas do “Juberval, o policial!”. Além disso fizemos algumas parcerias com o Silas em histórias curtas e com o JJ Marreiro em seu inoxidável “Beto Foguete”. Temos planos para uma edição impressa compilando parte do material do site.

 

Em 2016 nós voltamos a trabalhar juntos, desta vez no projeto da Fundação Demócrito Rocha chamado HQ Ceará. Nele, você trabalhou como professor e quadrinista, publicando uma bela história na Antologia HQ. Como foi essa experiência para você?

Você me pegou de surpresa com aquele projeto. Trabalhar com tantas pessoas foi de fato desafiador e recompensador. O mais difícil foi estar em diversas “frentes” ao mesmo tempo: instrutoria, vídeo aula, produção, enfim, foi como estar em uma superprodução “hollywoodiana”. Fiquei muito feliz com as indicações ao HQ Mix 2017, o que premia a boa vontade e a paciência do Raymundo Neto (e a sua também!) com toda a condução do projeto. Todo mundo também está de parabéns. Estou na torcida por mais desafios como aquele.

 

Como disse na apresentação, você é um artista completo: escreve, desenha, pinta e ilustra. Um quadrinista de mão cheia e um artista plástico. Para você, essas linguagens dialogam? Como você transita entre elas?10343503_1007396439326743_7470202149738470456_n

A arte é um todo. Você não pode ser um artista se não houver música no teu desenho, ou se não houver poesia na tua escultura. Fazer quadrinhos requer, no mínimo, conhecimento básico de roteiro, desenho, pintura, ritmo… mas não apenas conhecimento, mas vivência. Minha percepção mudou bastante quando comecei a dedicar tempo ao Pastel e à Aquarela, por exemplo. Requadros são pensados como se fossem fotografias, páginas como mosaico, histórias como filmes, e assim tudo contribui para o todo, de alguma forma. Vejo muito disso, por exemplo, na obra de Sergio Toppi que conseguia fazer narrativa gráfica e ilustração parecer uma só coisa.

 

Na minha opinião, a regionalidade é o que dá unidade e universalidade a todo espectro do seu trabalho. Você concorda? Como a sua relação com a sua terra influencia a sua arte?cajueiro

Eu não tenho medo de afirmar que muito disso se deve à influência do que vivenciei na Oficina de Quadrinhos. O apego às raízes sempre esteve em mim, mas descobrir o quadrinho nacional e, mais especificamente, o regional foi libertador. E aqui faço questão de honrar o professor Geraldo Jesuíno. Duvido você não mudar sua forma de fazer uma HQ depois de ouvi-lo contar uma história. Depois disso, “voltar à sua terra” fica bem mais fácil.

 

Você é formado em Administração de Empresas. Esta formação te ajudou como artista de alguma forma? Como administração envolve planejamento, fale-nos dos seus planos para o futuro. Quais são seus próximos projetos?IMG_20170522_184222_252

Confesso que não tinha pensado nesses termos, mas agora parece fazer sentido, sim. Sou metódico ao extremo. Tudo tem que estar em seu lugar antes de eu começar a fazer qualquer coisa. Talvez por isso acabe produzindo pouco.

Tenho um projeto ambicioso, de um roteiro que deve ter no mínimo uns 15 anos, e que só agora acredito ter reunido condições para fazê-lo (como disse, sou meu pior crítico). Além disso, tem o ARMAGEM que é como se fosse uma continuação das manhãs de sábado na Oficina. São muitas histórias por contar.

 

SERVIÇO

Celular: (85) 99110.50.50

Email: [email protected]

Instagram: @walberfeijo

www.armagem.com

Publicado por Daniel Brandão

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Etapas de Iluminação

dezembro 04, 2017


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A história de Fernando Lima

novembro 22, 2017


 

FotoDivulgaçãoA trajetória de Fernando Lima se confunde com os últimos 30 anos da história dos quadrinhos cearenses. Participante da primeira turma da Oficina de Quadrinhos da UFC este quadrinista formado em jornalismo testemunhou e vivenciou momentos históricos da arte sequencial local, tais como as revistas PIUM e Carbono 14, o álbum Moreira Campos em Quadrinhos, o portal de webcomics Armagem Herética, dentre outros.

Como jornalista, Fernando escreveu inúmeras matérias, resenhas e colunas sobre quadrinhos. Na graduação, ele dedicou seu trabalho de conclusão de curso à história da Oficina de Quadrinhos da UFC e de lá para cá foi testemunha ocular dos fatos e transformações do mercado local da nona arte.

Como um artista completo e prolífico que é, Fernando produziu muitas histórias em quadrinhos e criou diversos personagens, com destaque para Fantasma Escarlate. Seu profissionalismo exemplar rompeu fronteiras e levou o seu nome para os créditos de diversas publicações Brasil afora.

Vamos conversar sobre a rica trajetória deste grande artista. Além de conhecer quadrinhos como poucos, Fernando é escritor, designer, professor e muito franco com as palavras.

 

Vamos começar do início. Como os quadrinhos entraram na sua vida?

Sempre gostei de ler. Não só quadrinhos, mas, praticamente qualquer coisa que colocassem na minha frente. Na tenra infância, porém, quando ainda não conseguia decifrar o mistério das letras, obviamente, as imagens eram o que mais me atraia.

Eu tenho, pelo menos, dois tios que gostam muito de quadrinhos e provavelmente um deles deve ter deixado em algum lugar da casa uma daquelas pérolas coloridas e cheias de desenho que logo capturaram minha atenção, daí em diante as revistas em quadrinhos viraram companheiras constantes.

Logo eu não me contentava mais em apenas ler os quadrinhos, veio a vontade de criar meu próprio material e contar as minhas histórias.

 

O que mais te influenciou artisticamente neste seu início?

Essa pergunta é difícil, por que, naquela época, eu não tinha controle sobre o material que chegava até mim. Os adultos compravam as revistas e eu devorava tudo o que era colocado no meu prato. Uma semana eram quadrinhos da Disney, na outra uma edição de super-heróis da EBAL. Ganhei edições do Asterix e Valerian, antes mesmo de sonhar com as profundas diferenças que separavam este tipo de publicação, dos quadrinhos que eu via nas bancas.

Se eu for pensar cronologicamente, teria que dizer que minhas maiores influências no início foram os autores anônimos que produziam quadrinhos para a Disney e Hanna-Barbera, depois vieram Curt Swan, Steve Ditko, Jack Kirby e Jim Aparo.

 

Fale-nos sobre a origem da Oficina de Quadrinhos da UFC. Como você a descobriu? Você já cursava jornalismo?

Na verdade eu estava me preparando para o vestibular em 1985. Um colega de colégio que também curtia quadrinhos tinha ouvido falar desse lugar na Universidade que era aberto ao público e as pessoas iam para conversar, aprender e produzir quadrinhos.

Chegamos lá, no terceiro andar do curso de Comunicação Social da UFC, na sala de Projeto Gráfico, onde aconteciam as reuniões da Oficina e fomos recebidos pelo Prof. Geraldo Jesuíno, pela Jane Malaquias e pelo futuro “brega-star” Falcão. Mostramos os quadrinhos e rabiscos que tínhamos trazido em baixo do braço e, de cara, recebemos uma avalanche de informações sobre materiais, técnicas e apresentação.

Junto com todo o feedback veio um convite e nossa primeira “deadline”. Uma semana para produzir duas páginas de quadrinhos para serem publicadas no PIUM nº1.Oficina01

Eu já tinha planos em prestar vestibular para Comunicação e o contato com a Oficina e o que aprendi sobre o processo de edição e redação fortaleceram ainda mais esse propósito. No ano seguinte eu já estava oficialmente matriculado na UFC e logo me tornei monitor e bolsista da Oficina de Quadrinhos, sob a tutela do grande Prof. Geraldo Jesuíno.

 

Na sua avaliação, qual a importância da Oficina para sua vida e para o mercado de quadrinhos cearenses?

Simplesmente eu não creio que haveria praticamente nada do que existe hoje se não fosse a Oficina. Todas as pessoas que conheço e que trabalham com quadrinhos hoje em dia na cidade, ou foram alunos da Oficina (em uma encarnação ou outra), ou foram alunos de alguém que passou pela Oficina. Sem falar que projetos como a Gibiteca de Fortaleza e a Monstra são crias diretas de “Oficineiros”.

E mesmo se alguém disser que nunca teve contato, nem sequer indireto, com a Oficina, foi a brasa inicial desse incrível projeto que acendeu a chama criativa que vem, até hoje, aquecendo o ambiente de produção de quadrinhos na cidade.

 

Você poderia falar um pouco sobre as turmas da Oficina das quais você fez parte ou deu aulas?

No início a oficina era menos sobre turmas e aulas e mais sobre troca de experiências. Havia um grupo inicial formado de estudantes de direito, arquitetura, letras e comunicação.

Uma figura marcante é o (hoje) famoso apresentador, cantor e bregastar Marcondes Falcão, que na época era apenas um estudante de arquitetura. Ele já chamava a atenção na época pelo seu humor típico e seus quase dois metros de altura.  Falcão foi um dos que não seguiram carreira nos quadrinhos, mas não foi o único.

Jane Malaquias certamente aproveitou sua experiência nos quadrinhos para o desenvolvimento de storyboards para seus filmes. Ela foi estudar cinema em Cuba e hoje é uma fotógrafa, diretora e roteirista cinematográfica. Outra figura ilustre é o Jornalista e escritor Flávio Paiva que é um elemento de grande relevância no cenário cultural do estado.

O Weaver chegou novinho na Oficina, hoje é um artista plástico reconhecido, mas ainda se percebe uma grande influência dos quadrinhos no trabalho dele.

O Paulo César Amoreira, que entrou comigo na oficina de quadrinhos, hoje é um criador transmídia. Ele é Designer, Ilustrador, Fotógrafo, Videomaker, Dramaturgo, Artista de Arte Interativa e Gestor de Projetos Criativos. Mas o quadrinho está tão na alma que quando trabalhava como gestor público conseguiu criar a primeira gibiteca do estado do Ceará, A Gibiteca Luiz Sá, instalada dentro da Biblioteca Dolor Barreira.

Alguns dos participantes resolveram transformar o quadrinho em ganha-pão. É o caso do meu amigo JJ Marreiro e obviamente você, Daniel Brandão, que também teve sua passagem pela Oficina. E na minha opinião foram vocês e o Geraldo Borges, os grandes responsáveis por carregarem a tocha da oficina adiante. O Graph It Studio que vocês fundaram segurou a ideia da Oficina como um espaço de aprendizado e troca de informações, durante boa parte do tempo em que o projeto da Oficina ficou em hiato. Dessa forma eu considero que o Geraldo, mesmo não tendo feito parte da Oficina, é um herdeiro espiritual do legado desse projeto.

Da oficina saíram ainda juízes, procuradores, poetas e um número de outros profissionais que, se não mantiveram o quadrinho como carreira, pelo menos levaram para a vida os momentos de camaradagem e exercício criativo.

 

A principal publicação da Oficina de Quadrinhos chamava-se PIUM. Como ela foi criada e qual a sua relevância história?

Primeiro vamos falar do nome. Pium é um mosquito que tem no interior do Ceará. Ele é bem pequeno, mas incomoda muito e essa era a ideia da publicação. Algo pequeno no tamanho, mas que causasse algum rebuliço.pium02-01

Assim o Pium era um grande laboratório onde podíamos fazer experiências com os diversos elementos que compõem uma HQ. Produzido em off-set, ele também servia para nos ensinar como nossos trabalhos se comportavam ao ser impressos em um sistema profissional.

O Pium foi uma grande escola de produção e, mesmo não tendo uma periodicidade regular, eu não sei de outra publicação de quadrinhos local que tenha, historicamente, ultrapassado a marca dos 15 exemplares.

 

Houve uma tentativa ousada de se criar uma revista de banca chamada Carbono 14. Como foi esta experiência?

O termo Oficina vem da ideia de aprender fazendo. Não era só um curso, era uma forma de experimentar o “processo do quadrinho”. Parte desse processo era tentar compreender o mercado em que estávamos tentando nos inserir. A primeira tentativa da Oficina de capitalizar os quadrinhos surgiu com a criação da “Agência Pacatatu”, que levou tirinhas dos membros da Oficina para jornais locais de forma remunerada. Funcionou durante algum tempo, até que os jornais mudaram seus cadernos e sua política de publicação.

Então, alguns anos depois surgiu a pergunta — “Por que não colocamos uma revista em banca?”DHQ002_WEB

Em vez de simplesmente responder com a lista das dificuldades e limitações que (até hoje) existem para executar algo desse porte, o Prof. Jesuíno fez com que tentássemos. A revista foi produzida. A revista tinha capa colorida, formato grande e fomos a campo. Na época não tínhamos revistarias ou comic shops. Era nas bancas que você encontrava os quadrinhos e foi para bancas no centro da cidade que nos encaminhamos para oferecer nosso material. Deixamos cerca de 10 revistas em umas quinze bancas do centro de Fortaleza, para serem vendidas em consignação, quer dizer, se o jornaleiro conseguisse vender ele nos repassaria nossa parte do valor da venda, se não, levaríamos de volta as revistas “encalhadas”.

Sem marketing, sem destaque nas prateleiras e sem muito interesse por parte dos vendedores a saída da revista foi pífia. Em algumas bancas levamos de volta os dez exemplares, que estavam lá escondidos em uma prateleira do fundo. Em uma das bancas chegamos até a vender cinco das dez revistas, mas foi um caso isolado. A média era de apenas dois exemplares vendidos por banca.

Mesmo assim chegamos na número dois e só não insistimos com a três por limitações técnicas, mas a revista chegou a ser planejada e algumas das HQs produzidas.

O experimento nos ensinou sobre dois grandes empecilhos que, de certa forma, existem até hoje no mercado de quadrinhos — marketing e distribuição. Empecilhos esses que finalmente estão encontrando uma solução parcial com o surgimento das redes sociais.

Você participou do histórico (e raro) álbum Moreira Campos em Quadrinhos. Como foi participar desse projeto?

Para ser bem sincero, eu fui praticamente obrigado a participar do álbum. Não era o tipo de conteúdo que eu estava interessado em produzir e o único conto que me interessou já tinha sido “tomado”. Acabei cedendo e aproveitei para realizar um trabalho bem experimental, usando a limitada tecnologia que havia na época. O resultado final ficou aquém do que eu esperava, às vezes acho que podia ter valido a pena ser um pouco mais conservador na produção da HQ, mas tem gente que gostou do resultado final.DHQ001

Por outro lado acabei me envolvendo em diversos outros aspectos da produção do álbum. E foi muito interessante acompanhar o processo criativo dos outros autores. Ainda tenho algumas fotos de referência que tiramos para a HQ produzida pelo Paulo Amoreira e lembro bem da maquete de uma cidade do interior, que o Silas Rodrigues e o Jesuíno construíram sobre uma mesa, no centro da sala da Oficina, para servir de referência na HQ “O Prisioneiro”.

No final foi uma grande experiência e me ajudou a expandir um pouco mais meus conceitos e rever algumas ideias que acabavam por limitar meu trabalho.

 

Fale sobre sua atuação como jornalista. Você escreveu muito sobre quadrinhos?

A oportunidade surgiu de uma forma bem inesperada. No final dos anos 1980 as bancas estavam sendo inundadas por “graphic novels”. As editoras Abril e Globo estavam empurrando título atrás de título, tentando abastecer um mercado ávido por novidades e por quadrinhos “adultos”. As aspas entram aqui, porque, tirando algumas publicações européias e uma ou outra série que abordava temas mais maduros ou jornadas intimistas, o que realmente estava sendo entregue eram os mesmos quadrinhos de super-heróis de sempre, mas com uma roupagem mais elaborada, uma arte mais rebuscada e impresso em papel de melhor qualidade num tamanho maior. E, sinceramente, para mim estava muito bom (risos).

De qualquer forma essa explosão dos quadrinhos — desculpe — graphic novels, chamou a atenção dos meios jornalísticos. Não havia a internet como conhecemos hoje. As informações vinham muito mais devagar e os jornais ainda eram uma boa fonte de informação confiável e precisavam de um modo de chamar atenção de um público mais jovem, assim alguns jornais do sudeste começaram a publicar artigos fixos sobre o assunto.

Eu ainda estava na Universidade e era chegada a hora de estagiar em uma redação. Consegui um espaço no Jornal O Povo e a editora do caderno de variedades ficou sabendo que eu entendia bastante de quadrinhos e me convidou a escrever um artigo para o Jornal. Duas semanas depois eu tinha uma página inteira no referido caderno, que eu dividia entre duas paixões; HQs e vídeo-games.

Em pouco tempo a coluna começou a se posicionar como referência, não só local, e toda semana eu recebia uma boa quantidade de publicações de editoras de todo o país para ler, selecionar e fazer resenhas. Isso continuou por mais alguns anos até que o mercado começou a arrefecer.

Não havia mais tantas publicações de luxo e os lançamentos se tornaram escassos. Para mim, não fazia sentido cobrir o andamento de revistas de linha ou ficar me concentrando nos quadrinhos que eram publicados apenas fora do país, então conversei com o editor da época e resolvi me afastar. Eles tentaram manter a coluna, creio que ainda foram publicadas três ou quatro artigos, mas, como eu havia apontado, fica difícil noticiar algo se não há notícias e, por pura falta de material, a coluna acabou sendo extinta.

 

Na segunda metade dos anos 90 você se afastou da Oficina e, de certa forma, dos quadrinhos. O que te levou a isso? Como você avalia esta década?

Realmente não sei. Acho que me distraí. Acontece às vezes. Eu começo a fazer alguma coisa e quando vou ver já se passou uma década ou duas (risos). Mas, na verdade, nunca parei de desenhar ou escrever, apenas não havia nada que eu estivesse, realmente, interessado em publicar.

Para piorar um pouco essa situação, depois de tanto analisar quadrinhos, minha autocrítica estava demasiado apurada. Eu queria evitar, nas minhas histórias, algumas coisas que eu criticava nas HQs alheias. Furos de roteiros, mecanismos ultrapassados e fórmulas prontas.

Eu desenvolvia o roteiro, ele ia avançando bem, a história se desenrolava com naturalidade e, de repente, eu percebia que eu não tinha um bom final para a história e também não queria, simplesmente, quebrar a coerência interna da narrativa para forçar uma conclusão interessante.

 

O que te motivou a voltar a produzir?

Foi uma convergência de fatores.fada

Quanto ao bloqueio de roteiro eu percebi que, se as fórmulas existem e resistem há tanto tempo, é porque elas têm seu valor dentro de uma narrativa. Compreendi que algumas vezes, um furo no roteiro não é apenas um furo; é a única saída possível para uma situação impossível e que, se nem a realidade é totalmente coerente, eu também não sou obrigado a ser. Em outras palavras — Regras existem para ser quebradas e ninguém é obrigado a ser genial o tempo todo.

Em conversa com o prof. Jesuíno surgiu a ideia de aproveitar o potencial da internet para incentivarmos a nós mesmos e a mais alguns amigos em continuar produzindo quadrinhos. Resolvemos criar um site para hospedar as HQs online. Conversamos com mais alguns antigos membros da oficina. Fiz o design e a codificação do site, então, fizemos uma “vaquinha”, compramos domínio, hospedagem e batizamos o site em homenagem a uma história curta do Silas Rodrigues, que por sua vez era uma homenagem à Garagem Hermética do Moebius. Assim surgiu a Armagem Herética, ou simplesmente armagem.com, como acabou ficando conhecido.

Você é uma das pessoas mais atualizadas com tecnologia que conheço. Quando você se deu conta do potencial da internet?

Em 1995 eu já estava trabalhando com um provedor de internet, ainda na época da conexão discada. As imagens carregavam devagar e quase tudo era na base do texto. Mas a tecnologia estava alí e se desenvolvendo rápido.

No início dos anos 2000, com a popularização do Macromedia Flash, um programa que possibilitava o uso de gráficos leves em animações e outras aplicações online eu percebi que tínhamos uma ferramenta poderosa em mãos.

Comecei a experimentar em alguns sites de hospedagem gratuita e a publicar, na rede, ilustrações e histórias e fui adaptando meu trabalho na medida em que a tecnologia foi avançando e ainda estou nisso até hoje, nunca parei.

Mas confesso que essa minha afinidade por tecnologia, por vezes é um teste de paciência. Eu vejo para onde a tecnologia está indo e vejo coisas que me interessam bastante sendo desenvolvidas, mas acaba demorando dois ou três anos até que cheguem ao mercado e  mais uns dois ou mais anos até que o preço se torne minimamente acessível. Dessa forma, entre a ideia do que eu poderia fazer com determinado produto ou programa e o momento em que eu posso finalmente trabalhar em cima disso lá se foi mais uma década.

 

Dentre os seus personagens, o Fantasma Escarlate se destacou. Fale sobre sua criação mais famosa.

Foi um acidente. Um feliz acidente com uma bela anedota para ser contada em eventos, palestras e workshops sobre criação de personagens.FantescPromo07

Eu havia sido chamado para a festa de aniversário de uma querida amiga, a @lyladellatorre, era uma festa a fantasia. A partir de um agasalho com capuz, que encontrei em um brechó no centro da cidade, resolvi criar um uniforme de super herói para ir a festa.
O visual ficou tão interessante que alguns amigos me cobraram o desenvolvimento daquele personagem, assim, algumas semanas depois, comecei o trabalho de composição, assim, usando a estrutura dos desenhos animados da Hanna-Barbera dos anos 1960, adicionando um pouco dos conceitos das animações da DIC e da Filmation na década de 1980 e mais uma pitada de elementos dos Tokusatsu — os seriados de heróis japoneses — criei a base do que seria o universo do Fantasma Escarlate.

Depois de misturar bem, deixei descansar por umas semanas para amadurecer e comecei a fazer a primeira HQ com o herói que foi publicada no site da Armagem.com e acabou fazendo bem mais sucesso do que eu esperava.

 

Uma curiosidade do seu trabalho é que diversas histórias têm como cenário a cidade de Fortaleza ou o estado do Ceará. Por que isso? Como a sua relação com o ambiente que você vive influencia a sua arte?

Para mim parece bem natural. Nos seriados e filmes japoneses os monstros e alienígenas sempre atacam Tókio. Nas produções americanas o alvo é Nova York ou Washington. O Stephen King desenvolve suas tramas no estado do Maine, onde ele vive.

O mais natural é você localizar suas histórias em um ambiente familiar, afinal é mais fácil escrever sobre aquilo que você conhece. Muitas vezes optamos por criar cidades fictícias para tornar a trama mais “universal”, mas achei que seria divertido fazer as aventuras se passarem em Fortaleza, mesmo que seja uma Fortaleza que alterna cenários reconhecíveis com outros ambientes completamente ficcionais.

Quanto à influência do ambiente: não tem jeito, o lugar em que você vive é o centro do seu mundo. É o que você percebe. É o que você vive. Isso acaba influenciando seu trabalho sim, muitas vezes de forma sutil, mas está sempre presente.

 

Como você avalia a sua carreira? Quais foram os pontos mais marcantes?

Avaliar minha carreira? Não sei se saberia fazer isso. Não penso muito a respeito, mas acho que é um caminho e tem sido um caminho, geralmente, divertido de percorrer.

Já me disseram que sou parte da história das HQs no Ceará e, sim, participei de grandes momentos dessa jornada. O início da Oficina de quadrinho da UFC, a criação da Gibiteca Luiz Sá, a formação do Fórum de Quadrinhos do Ceará, as comemorações sempre inspiradoras do Dia do Quadrinho Nacional, recentemente o Projeto HQCe, junto à Fundação Demócrito Rocha. Tudo isso, porém, são coisas efêmeras.

O que realmente conta é  que conheci pessoas incríveis. Tive contato com grandes figuras do nosso meio, como Maurício de Souza, Will Eisner, Neil Gaiman. Acho, porém, que o mais marcante mesmo foram as amizades que foram firmadas, entre elas, algumas pessoas que têm que ser citadas são o meu grande mestre, Geraldo Jesuíno. Meu amigo, quase irmão, JJ Marreiro. O talentosíssimo Geraldo Borges e, é claro, você, Daniel Brandão.shazam

 

Quais são seus próximos projetos?

Eu estou trabalhando na expansão do Universo do Fantasma Escarlate. Na verdade serão “spin-offs”. Novos personagens e séries que surgirão nas aventuras do Escarlate e depois ganharão séries próprias. Estou trabalhando, também, em algumas ideias para o Tião Caçuá. Esse personagem já foi publicado na “Antologia de Quadrinhos” e as histórias se passam em uma versão meio “vaporpunk” do nosso estado na virada do século dezenove, misturando aventura e fantasia e um regionalismo “criativo” (risos).

Também teremos novidades online. A Armagem.com vai passar por mudanças no segundo semestre de 2017, mas ainda estou trabalhando na parte técnica e desenrolando umas questões financeiras.

 

Como você enxerga o mercado de quadrinhos cearense hoje em relação aos anos 80 e 90? Qual sua projeção para o futuro desta mídia?

O mercado, se assim podemos chamar, continua pequeno. Tímido. Devo reconhecer, porém, que trabalhamos bem com o que temos e o que temos é muito talento e garra. Os criadores estão utilizando mais as ferramentas de financiamento coletivo e patronagem, que se encontram online. Os coletivos estão se organizando e produzindo material. Soube que o Weaver Lima montou um gabinete gráfico para impressões de pequenas tiragens, que pode ser uma grande sacada para os produtores independentes. As coisas estão acontecendo. Os eventos estão abrindo espaço para os artistas, mas a produção ainda é mínima.

O futuro imediato é uma evolução do que já temos. Não prevejo nenhuma mudança significativa a curto prazo. Novos autores vão surgir, mais antenados com as mídias atuais. Eu percebo que esse pessoal jovem é muito bom em consumir conteúdo eletrônico, mas não aprenderam ainda a produzir.

Os coletivos locais deveriam ter portais próprios para publicação de material online, com objetivo de formar uma base de leitores e promover melhor as campanhas de financiamento coletivo para conseguirem publicar em formato físico.

Uxinho

SERVIÇO

Site de Quadrinhos: www.armagem.com

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Publicado por Daniel Brandão

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Estúdio Daniel Brandão

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