O Resgate de Nossa História

junho 19, 2019


Qual sua história? Não a que você vai escrever ou desenhar ou pintar, mas aquela que veio antes de você. Aquela que te define, que formou a pessoa que você é. Aquela que ainda não acabou, porque ainda há vida pulsando em suas veias e incertezas o suficiente para que você passe um tempo nessa espacial esfera azul tentando descobrir as respostas ou se relacionar melhor com as perguntas.

“A busca por quem somos” é tema de muitas narrativas, fazendo com que voltemos aos nossos passados pessoais (ou Históricos) para descobrir parte de quem somos e termos uma maior clareza do caminho que podemos (ou queremos) percorrer. Para a arte, descobrir (ou voltar) ao passado é uma experiência fascinante, pois é reencontrar mestras e mestres que acertaram, erraram e experimentaram para que pudéssemos ter o que temos hoje.

Artistas que retornam à história de suas artes, costurando suas narrativas pessoais com suas produções, entrelaçando-as nas linhas das biografias daqueles que referenciam e nas produções destes, costumam viver experiências de auto-descobertas únicas, nas quais o aprendizado é levado por sentimentos de significação e encaixe no mundo.

É cruel esperar que a arte tenha como pesado objetivo definir o futuro. Isso é consequência natural de uma produção que vive o presente, respeitando seu passado, reconhecendo sua história, aprendendo com sua própria crônica e na reconstrução de sua memória.

E você, artista, em que lugar do passado está seu presente?

Publicado por Daniel Brandão

O Estúdio Daniel Brandão produz quadrinhos, ilustrações, criações de personagens e mascotes. Aqui também são oferecidos cursos de Desenho, HQ, Desenho Avançado e Mangá, além de aulas particulares.

As Profissões Invisíveis

junho 12, 2019


A primeira vez que trabalhei com quadrinhos não foi como escritor ou letrista, mas como revisor. Eu mesmo não entendia a importância da profissão até começar a executá-la e, mesmo assim, nunca quis “fazer carreira” com a revisão, mas utilizá-la como um degrau para outras. Assim, de revisor, passei a ser letrista e depois comecei a escrever meus próprios roteiros.

No entanto, a revisão me fez perceber algo: eu era “invisível” para quem lia o quadrinho. Não houve falha dos produtores em indicar quem executou a função, mas, de forma talvez muito natural, há uma hierarquização no processo de feitura que faz com que o revisor seja deveras importante para quem produz a obra, mas praticamente esquecido pela maioria dos leitores.

Por sinal, quanto maior a qualidade da revisão, maior a possibilidade de ela não ser percebida por quem lê, assim como, se ela não for apropriada, a percepção de que “faltou revisão” aumenta e, com isso, a chance de alguém (revisor) ser indicado como realizador de um produto desleixado, “feio”.

Numa escala menor, arte-finalistas passam por um processo parecido. Enquanto bons arte-finalistas são disputados a tapa por desenhistas, aos olhos do leitor regular o encantador acabamento (ou a perturbadora finalização) é consequência da técnica e talento do desenhista: estrela suprema de um bom gibi, ficando ao arte-finalista a estereotipada função de “cobrir de preto” o lápis.

Uma das consequências desse tipo de pensamento é o desenvolvimento de escritores bastante preocupados em fazer um texto o mais gramaticalmente correto possível – chegando a dispensar revisores – e desenhistas com “lápis” cada vez mais acabados e precisos, deixando pouco (ou mesmo nenhum) espaço para a interação com arte-finalistas. Apesar de parecer uma melhora na eficiência do trabalho – o que casa perfeitamente com o pensamento do capital e a busca pela conclusão cada vez mais rápida do processo – pode significar a perda da oportunidade de ter uma segunda visão inserida no trabalho, muitas vezes contribuindo para que este vá numa saudável e criativa direção não planejada, melhorando-o ou mesmo retirando uma preocupação dos produtores originais, permitindo-os relaxar enquanto concentram-se noutra etapa do processo ou produzem uma nova obra.

Apesar de “invisíveis”, essas (e outras) profissões são importantes por agregarem muito à obra, acrescentando um novo mundo de experiências ao resultado. Bons revisores veem além do texto, muitas vezes trazendo sugestões válidas que garantam que o produtor original consiga manter sua voz em todas as etapas do texto, procurando colocá-lo no caminho correto de seu próprio universo. Além de analisar espaçamentos, adequação do design, ordem de títulos, coerência visual, nomes de envolvidos etc. Bons revisores são fiscais do “documento textual”, não simplesmente indicadores das incoerências textuais.

Por sua vez, arte-finalistas de qualidade dão forma ao lápis, trabalhando o bom ajuste de luz e sombra, desenvolvendo texturas, corrigindo discrepâncias estruturais, desvios anatômicos e reforçando a narrativa visual. Além disso, podem dar identidade ao traço, mantendo a integridade e consistência das formas, diferenciando planos, reforçando focos, trazendo limpeza e equilíbrio ao desenho.

A parte disso, reconhecer (e mesmo se utilizar de) essas “profissões invisíveis” é ter a certeza da quantidade de mãos e mentes de um trabalho, e perceber que um quadrinho ou um livro são muito mais do que os destacados nomes de seus escritores e desenhistas, mas o resultado do trabalho de uma equipe apaixonada por essas artes e, dentro de certo engajamento, co-autores das obras que tanto amamos.

Publicado por Daniel Brandão

O Estúdio Daniel Brandão produz quadrinhos, ilustrações, criações de personagens e mascotes. Aqui também são oferecidos cursos de Desenho, HQ, Desenho Avançado e Mangá, além de aulas particulares.

Independência e maturidade

junho 05, 2019


É bem comum aparecerem pessoas interessadas em nossos cursos com o desejo de se tornarem artistas profissionais, mas, principalmente, independentes (vivendo da própria arte, cuidando das próprias publicações e produções). “Independência” é uma palavra de poder imenso, pois vem acompanhada com uma série de expectativas positivas que muitas vezes são derrubadas por uma realidade inesperada, recheada de cobranças, disciplinas e elementos dos quais aparentemente não se têm controle.

É importante encarar um novo desafio (principalmente algo que se quer levar pro resto da vida) com um pensamento cheio de esperança, mas também saber “dosá-la” com temperança e, principalmente, alguma informação e preparação. Serve muito àqueles que desejam viver a “independência” artística pensar tanto como artistas quanto como administradores de suas carreiras.

O caminho para isso, claro, não é fácil, mas não precisa ser doloroso… nem necessariamente feito por você. Gerir a própria carreira soa como interessante e prático para alguns; para outros, no entanto, pode vir a ser tal suplício que os leve a desejar não mais fazer o que gostam. Dessa forma, criar parcerias surge como uma saída interessante, afinal, se você se vê como um bom “projeto de negócios”, talvez seja igualmente bom para outro também: principalmente alguém que curta se envolver nos “logaritmos” da administração, movendo as peças, preparando as agendas, analisando mercados, itens, público etc.

O que muitos artistas independentes não percebem é exatamente isso: artista e arte funcionam como uma pequena empresa e, por isso, estão à mercê de todos os bônus e ônus de um empreendimento desse porte, tanto em sua organização quanto nos seus resultados. Costuma ser um equívoco colocar a arte em uma posição divina e o artista como alguém dotado de uma “existência privilegiada”, cujo sucesso é resultado imediato de sua apreciação – e isso afasta não só fãs e interessados, mas potenciais parceiros que poderiam levar aquele trabalho a outros públicos além de seu nicho.

Quando se tem a maturidade para perceber que a apresentação e publicação do trabalho artístico está não só no reconhecimento das qualidades de seu produtor, mas também na boa relação com parcerias e contatos e, principalmente, na dedicação que se tem ao tornar aquela obra um empreendimento sustentável, então não há barreiras para o artista, mas um plano de negócios com objetivos e ações claras, que encontra uma forma de se manter lucrativo, íntegro e, principalmente, em constante crescimento.

Publicado por Daniel Brandão

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Tecnologia, Conectividade e Arte

maio 08, 2019


Há um tempo a humanidade tem buscado e vivido a conectividade: uma forma interessante de ultrapassar barreiras e manter todos ligados, o tempo todo e em qualquer lugar. Longe de ser uma ideia ruim, seu fascínio – ou dos objetos que permitem que tal coisa ocorra – muitas vezes pode ser mais importante do que seu real fim: construir um vínculo com alguém ou descobrir uma visão mais ampla do mundo e a real significância de nós, seres humanos, nele. Assim, seguindo essa lógica, cria-se um efeito contrário ao esperado: ao invés das pessoas estarem mais próximas, estão fisicamente mais distantes, conectadas umas às outras por suas máquinas, mas desconectadas de suas relações mais íntimas. Assim o mundo acaba se tornando pequeno demais para ser alcançado, mas deveras grande para ser assimilado ou sentido.

Nesse ínterim, a simplicidade do trabalho artístico – no agradável carinho no apego ao produzir – nos leva a repensar essa situação, a encontrar, na importância das pequenas coisas, aquilo que nos torna parte do infinito universo: nos relembrar de nossa conectividade, reatar os que estão à nossa volta, relembrando das comunicações humanas físicas, presentes, imediatas.

Há um fascinante e importante trâmite em fazer arte: a capacidade de se viver (ou de viver e ver) além de nossos próprios olhos, fora das zonas seguras que estabelecemos, e estar junto de outros, atravessando experiências que nos edificam – indo além das telas de “conectividade” e encontrando aquilo que está diante de nossos olhos e ao contato de nossas mãos. A arte, afinal, é essa magnífica representação do real através do acurado olhar do artista.

Depois que eu me dediquei mesmo ao que eu amo, eu entendi que arte não tem nada de egoísmo, arte é compartilhamento, é felicidade espalhada. Todo dia eu recebo não sei quantas mensagens de pessoas dizendo que amam o que eu faço, que se sentem inspiradas. Isso é muito mágico. Essa é a minha maior motivação. E de qualquer forma, a vida é curta, e temos que fazer o que gostamos mesmo”. – Natália Matos, quadrinista e artista plástica.

Se é assim tão curta como diz Natália, então é preciso construir o tempo de compartilhar nossos sonhos uns com os outros lado a lado, além da conectividade do progresso, mas na eterna conectividade do abraço gerado pelas linhas, formas, cores e animações da arte.

Texto de Luís Carlos Sousa

Publicado por Daniel Brandão

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A Arte como Produto Coletivo

maio 01, 2019


Quando pensamos na arte enquanto profissionais desta e nos dedicamos tal qual, o pagamento – o valor do suor e do estudo e do tempo gasto para isso – se torna uma necessidade natural. No entanto, muitas vezes a procura ou expectativa desse pagamento nos distancia do nosso objetivo em fazer arte.

É comum ver o artista como um ser solitário, preso num instante de inspiração, numa busca enorme pela obra: pelo produto – para que esse possa ser visto, reconhecido, respeitado e validado, por vezes, é medido por seu valor financeiro.

Mas arte é mais que isso. Arte pode ser algo completamente inestimável, porque arte não é (só) o resultado, mas a experiência de fazê-la. Mais que isso, é importante lembrar que quando a obra artística atinge outro ela deixa de ser uma experiência só do artista pra ser algo assimilado e reinterpretado pelo público, tornando-se, assim, algo coletivo.

Ora, e não pode ser ela uma obra coletiva desde sua concepção, passando por sua feitura até sua apreciação? Não poderia ser a arte, na verdade, não o produto de algo, mas a vivência de muitos, juntos por um objetivo em comum, trocando conhecimentos, culturas, pensamentos e ideias para criar algo que é um amálgama de tudo isso e será apreciado por outros, mas que, principalmente, os uniu ali?

Nesses tempos em que vozes podem ser silenciadas, pessoas invisibilizadas, guilhotinas afiadas, acreditamos que poderia a arte ser mais que um produto a ser apreciado na sala como identificação de um status econômico, mas a aproximação de várias vozes, mentes e sentimentos vivendo a experiência de se conectar e compartilhar suas vidas umas com as outras e com o mundo. A arte pode ser mais que apreciação, ela pode ser reconhecimento e familiariadade, comunicação, humildade, compaixão e fraternidade.

O produto da arte é perecível. Ele pode ser destruído pelo tempo, consumido pelo fogo, levado pelo vento, inundado pelas chuvas – mas a experiência de sua concepção é eterna, é profunda, é universal e humana, porque a arte serve aos sentimentos e ao reconhecimento de nós mesmos e dos outros.

Assim, repetindo as palavras de Neil Gaiman e que nos serve de mote em muitas situações: (Hoje, mais do que nunca) Façamos boa arte (juntos).

– Texto de Luís Carlos Sousa. Tema proposto por Blenda Furtado. Inspirado no vídeo de Nora Atkinson

Publicado por Daniel Brandão

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